Concerto pela Orquestra Gulbenkian, 21 setembro

No convento de S. Francisco, em Santarém

A Orquestra Gulbenkian foi fundada em 1962. Inicialmente constituída por doze músicos, conta hoje com um efetivo de sessenta e seis instrumentistas, número que pode ser aumentado de acordo com os programas executados. Esta constituição permite-lhe interpretar um amplo repertório, desde a música do Barroco à música contemporânea.

Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza no Grande Auditório uma série regular de concertos em colaboração com alguns dos mais reputados maestros e intérpretes. Ao longo de mais de cinquenta anos distinguiu-se também em muitas das principais salas de concertos do mundo e gravou vários discos que receberam importantes prémios internacionais. Susanna Mälkki é a Maestrina Convidada Principal e Joana Carneiro e Pedro Neves são Maestros Convidados. Claudio Scimone, titular entre 1979 e 1986, é Maestro Honorário, e Lawrence Foster, titular entre 2002 e 2013, foi nomeado Maestro Emérito.

 

 Maestro Pedro Neves
Pedro Neves é Maestro Convidado da Orquestra Gulbenkian e Maestro Titular da Orquestra Clássica de Espinho. É professor na Academia Nacional Superior de Orquestra e doutorando na Universidade de Évora, tendo como objeto de estudo as seis Sinfonias de Joly Braga Santos.
Pedro Neves nasceu em Águeda e iniciou o seu percurso musical no Conservatório de Aveiro, onde estudou violoncelo com Isabel Boiça. Foi também aluno de Paulo Gaio Lima na Academia Nacional Superior de Orquestra e, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, estudou com Marçal Cervera na Escola de Música Juan Pedro Carrero, em Barcelona. Foi premiado no concurso da Juventude Musical Portuguesa e no Prémio Jovens Músicos – RTP Antena 2. Interessou-se pela direção de orquestra desde muito cedo. Estudou com Jean Marc Burfin na Academia Nacional Superior de Orquestra, onde se licenciou. Em seguida, aprofundou os seus conhecimentos de direção com Emílio Pomàrico, em Milão. Em 2006 e 2008, foi maestro assistente do maestro Michael Zilm. Foi maestro titular da Orquestra do Algarve (2011-2013) e é um convidado regular das principais orquestras portuguesas. Dirigiu também a Orquestra da Cidade de Joensuu (Finlândia) e a Orquestra Sinfónica de Porto Alegre (Brasil). Em 2012 colaborou pela primeira vez com a Companhia Nacional de Bailado, tendo dirigido A Bela Adormecida de Tchaikovsky. No domínio da música contemporânea, colabora com o Sond’arte Electric Ensemble, tendo dirigido estreias de obras de compositores portugueses e estrangeiros. Com o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa e com o Remix Ensemble – Casa da Música, realizou digressões na Coreia do Sul e no Japão. É fundador da Camerata Alma Mater, que se dedica à interpretação do repertório para orquestra de cordas. A sua personalidade artística é marcada pela coerência e pela seriedade da interpretação musical.

 Solistas Francisco Lima Santos e Lourenço Macedo Sampaio

 

Ludwig van Beethoven
Coriolano, Abertura em Dó menor, op. 62
Wolfgang Amadeus Mozart
Sinfonia Concertante, para Violino, Viola e Orquestra, em Mi bemol maior, K. 364
Allegro maestoso
Andante
Presto
Ludwig van Beethoven
Sinfonia Nº 1, em Dó maior, op. 21
Adagio molto – Allegro com brio
Andante cantabile con moto
Menuetto: Allegro molto e vivace
Finale: Adagio – Allegro molto e vivace

Wolfgang Amadeus Mozart
Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra, em Mi bemol maior, K. 364

Concluída entre 1779 e 1780, a Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra, K. 364, anuncia, em vários planos, muitas das transformações que viriam a caracterizar a escrita de maturidade do compositor: a projeção idiomática das partes solistas, o acentuar de interdependências entre os naipes e a riqueza dos jogos tímbricos confluem para uma mesma direção estética e estilística, a qual é também fruto das várias influências recolhidas em Mannheim e Paris, entre outras cidades europeias que Mozart visitou durante esta mesma década.
Composta na tonalidade de Mi bemol maior, muito apreciada por Mozart, o primeiro andamento da Sinfonia, Allegro maestoso, estrutura-se em torno de dois componentes temáticos principais: o primeiro de contorno marcial; o segundo mais sereno e expressivo. Segue-se uma secção de tutti orquestral que faz dilatar a harmonia em direção à tonalidade dominante, após o que intervêm as trompas, com o segundo tema, logo comentado pelos oboés sobre o acompanhamento das cordas, em pizzicato. Novo desenho temático com trilos proeminentes se esboça então nas cordas, em crescendo constante, como que a preparar o ouvinte para as passagens em uníssono, protagonizadas pelos instrumentos solistas. O andamento prossegue com diálogos muito eloquentes entre o violino e a viola, fazendo apelo a uma dimensão técnica e expressiva de considerável exigência. A cadência final, anotada na íntegra por Mozart, retoma os enunciados motívicos em eco, mas depressa funde a sonoridade dos solistas em expressivas cadeias de terceiras paralelas, antes dos compassos finais, em tutti orquestral. É um Mozart emotivo, confidente, aquele que se desprende do segundo andamento, Andante, ciente de um rumo promissor de experiências interiores que encerra, em si, a prefiguração do futuro movimento romântico. O tema inicial, signo deste universo, é anunciado pelos violinos em uníssono sobre as figurações de acompanhamento das violas, resplandecendo depois no violino solista e na viola, instrumento que introduz variações na linha melódica. Apesar de trazer à textura novos componentes temáticos, o compositor inflete persistentemente no material melódico de partida, ao mesmo tempo que acentua um pathos triste e angustiado, à medida que conduz o andamento para o seu epílogo. Logo se desvanecem os acentos mais sombrios do Andante com as evocações de dança do andamento final, Presto, repartidas, em partes iguais, entre os solistas. As irregularidades rítmicas do principal componente temático do andamento contribuem para impelir o discurso musical, por vezes pontuado por harmonias inesperadas. De novo, trompas e oboés descrevem passagens melódicas de grande beleza, ajudando a fazer pontes entre as secções solistas, mas é o tutti orquestral que encerra o andamento, com energia contagiante.

Ludwig van Beethoven
Sinfonia n.º 1, em Dó maior, op. 21

Paradigma da herança cultural europeia, o corpus de sinfonias de Beethoven reveste-se de um significado axiomático para a plena compreensão das transformações musicais que ocorreram durante o Classicismo e primeiras décadas do Romantismo, ajudando também a perspetivar variadas linhas de fundo que se vieram a concretizar ulteriormente, tanto no plano concreto da criação musical sinfónica, como no plano das ideias e mentalidades próprias de uma era marcada pelo conflito, pelo racionalismo e pela inovação técnica e industrial.
Quando Beethoven concluiu a sua primeira sinfonia, em Abril de 1800, a história do género conhecia ainda um percurso relativamente breve, indissociavelmente ligado aos vultos de Giovanni Battista Sammartini, Johann Stamitz, Mattias Georg Moon, Johann Baptist Vanhal, Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart, entre muitos outros compositores. Torna-se pois compreensível que as linhas formais e estilísticas emergentes nesta obra pioneira tenham a ver essencialmente com a herança deixada pelos seus mais diretos predecessores na denominada Escola de Viena e reflitam, por consequência, os mesmos ideais de proporção e uma similar orientação temática e harmónica.
A estreia da Sinfonia n.º 1, op. 21, teve lugar no Teatro Imperial de Viena, a 2 de Abril de 1800, sob a direção do compositor. A sua receção traduziu-se por um misto de admiração e desagrado, ante uma linguagem orquestral que, em alguns momentos, desafiava abertamente os gostos instituídos. O crítico do Allgemeine Musikalische Zeitung começa por considerar a obra possuidora de “arte considerável, inovação e riqueza de ideias musicais”, mas logo em seguida, aponta o “excesso de sopros” que, no seu entender, dava mais a impressão de se tratar de “música militar” do que de “música para orquestra propriamente dita”. Para o concerto, o compositor contratou os cerca de quarenta elementos da orquestra do Teatro de Ópera italiana de Viena, um agrupamento que, apesar da sua experiência, padecia de imagem conflituosa, devido às permanentes disputas internas sobre quem deveria assumir a direção dos naipes. A avaliar pelas palavras do mesmo crítico, os problemas de coordenação e disciplina assomaram publicamente, pois “perante tal comportamento, de que serve toda a inegável proficiência dos membros deste grupo? Sob tais circunstâncias como pode produzir efeito mesmo a mais excelente das composições?”.
Apesar da estreia pouco auspiciosa, a Sinfonia n.º 1 impôs-se rapidamente no repertório, logo após a sua publicação no ano seguinte. A dedicatória foi dirigida ao Barão Gottfried van Swieten, diretor da Biblioteca Imperial e personalidade destacada da vida musical vienense.
Notas de Rui Cabral Lopes

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